quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Manual de Redação da História da Sua Vida

Conversando com alguns amigos e familiares recentemente, fiquei pensando muito na maior de todas as filosofias de auto-ajuda. Não, calma aí. Na segunda maior de todas. A primeira e maior filosofia de auto-ajuda é, pra mim, tão relativa quanto debater o verde e o vermelho com um daltônico, então não é nela que eu estou pensando com frequência.

A segunda maior frase motivacional de todos os tempos está presente em TODOS os livros do Augusto Cury (confesso, eu digo isso sem ter lido nenhum), em todas as horas de sessões de todos os psicólogos da galáxia, em todos os filmes como Rocky, Karatê Kid ou Lua de Cristal, em todos os discos do Eminem e do  Charlie Brown Jr. (e também em todos os discos do Rouge), em todos os cartões de fim de ano. Se você ainda não sabe qual é o segundo maior mantra de todos os tempos, aí vai ele:


"Você é o autor da sua própria história".

Pode ser engraçado pensar nisso visto que é tão óbvio mas, faz todo sentido do mundo.

A maioria das pessoas que eu conheço tem um ou mais sonhos que nunca vai realizar por culpa de ninguém menos do que elas mesmas. Acontece que não reparam que as coisas que lhe dizem respeito são de responsabilidade sua e de mais ninguém, incluindo sua felicidade e sonhos.
Muita gente acorda, existe e vai dormir, dia após dia, do princípio ao fim da existência, sem reservar um tempinho que seja para refletir sobre a vida e as coisas que o circulam, sobre seu próprio comportamento para com os outros, suas atitudes diante das situações, seu modo de ver a si mesmo com todos os medos e alegrias que isso permite, seus sonhos quando encara um céu estrelado ou "nuvelado"...

Esses dias, lendo o excelente Livros e Afins, encontrei um link a esse texto de Matheus Pacheco - Metas Pessoais: da Grécia Antiga ao Twitter (leia o texto completo clicando lindo aqui) - no qual ele aborda pensamentos do filósofo grego Epicuro (341 a.C. - 270 a.C), do qual extraí o seguinte trecho:

Epicuro dizia ter descoberto nossas verdadeiras carências, os três elementos que nos permitiram alcançar a felicidade: amizade, liberdade e uma vida bem analisada. Mas, se a receita é relativamente simples, por que a maioria das pessoas não é feliz?
Claro que é pura especulação da minha parte apontar qual o fator causador dessa não realização dos sonhos e metas, mas um elemento constante que costumo perceber é que a geração em que me incluo é fruto de uma leva anterior com um comportamento não muito semelhante ao nosso, que teve de lutar pelas coisas que queria conseguir, e às vezes contra todas as probabilidades e opiniões alheias, realizar seus sonhos (quantos de vocês não ouviram história de gente que, há mais de 20 anos, fugiu para casar?).
Não estou menosprezando o empenho de quem trabalha em dois empregos e estuda, mas percebo que até as conquistas da nossa geração são "mais fáceis", um exemplo disso é o nosso mais jovem bilionário na história da humanidade, o dono do Facebook, Sr. Zuckerberg. Longe de mim dizer que não foi sofrido pra ele, mas temos de convir que nem de longe foi tão difícil quanto era construir uma fortuna há 30 anos atrás.

Eu acredito convictamente que todo crescimento surge de algum tipo de sofrimento, seja ele qual for (falo mais sobre isso num próximo texto). E até onde tenho visto, nossa geração não sofreu o choque necessário para identificar as causas dessa sua falta de confiança.

Nós admiramos pessoas em posição de liderança, invejamos gente que conseguiu o que queria sem nos lembrar que o mundo está à nossa disposição, para que possamos ir lá e pegá-lo. Essas pessoas supostamente realizadas tiveram apenas de saber centrar um objetivo e fazer o possível para alcançá-lo.

Estou lendo o ótimo Do Que Falo Quando Falo de Corrida, do Haruki Murakami (também falo mais sobre ele num futuro próximo) e a certa altura do texto, Murakami (que é um dos grandes escritores japoneses) traça paralelos entre a corrida e a escrita. Ele diz que entre as maiores qualidades, tanto de um romancista quanto de um corredor estão o talento, a concentração e a perseverança. E eis o que ele diz sobre os dois últimos.
"...escritores que não foram abençoados com grande talento (...) precisam adquirir força por conta própria. Eles têm de treinar para melhorar a concentração, aumentar sua perseverança. Em certa medida, são obrigados a fazer essas qualidades substituírem o talento. E, no processo de se apoiar nelas, pode ser que descubram um talento real escondido dentro deles. Eles estão suando, cavando um buraco junto aos pés com uma pá, quando se deparam com uma mina d'água secreta, subterrânea. É uma coisa afortunada, mas o que tornou essa boa sorte possível foi todo o treinamento que fizeram que lhes deu força para continuar a cavar."

É só e tão somente só uma questão de esforço. Citando mais um foda do universo, Einstein disse certa vez que "Sucesso e genialidade, são 10 por cento de inspiração e 90 por cento de transpiração." (depois eu li na Veja que ele se referia à física moderna, mas isso não muda absolutamente nada).

Pense num tio com moral para falar de sucesso e genialidade.

O que me parece é que nossa geração se condicionou a esperar pelo talento ao invés de ir compensá-lo com trabalho árduo e o prazer de ver o esforço não ter sido em vão.

Não estou dizendo que mudar completamente de vida e de atitude seja uma coisa fácil, mas nada do que realmente vale a pena conquistar nessa vida vem de mãos beijadas.

Se você quer um carro, cabe a você alcançar os meios para consegui-lo; se o seu sonho é uma promoção, dê o melhor de si e mostre do que é capaz (e acostume-se a desafiar o "melhor de si", no fim, vai acabar  percendo que o melhor de si é muito melhor do que você supunha); se seu objetivo é alguém, uma pessoa que mexe com você... por Deus, desde que o mundo é mundo as pessoas bolam planos e maneiras de chamar a atenção do ser amado, desde de puxar a mulher pelo cabelo, como faziam os primitivos, a colocar som no carro e andar pra cima  e pra baixo gastando gasolina à toa, como fazem os primitivos atuais, então me diga por que justo com você haveria de ser diferente?

Em Esperando Por Mim, do Legião Urbana, Renato Russo cantava "Digam o que disserem o mal do século é a solidão". Pois bem, talvez Renato estivesse certo, mas estamos todos num novo século - menos o Renato Russo (risos) - e para mim (apesar de achar que é cedo demais para dizer isso) o mal do nosso século (ou pelo menos da última década) foi nada mais do que a falta de confiança em si próprios. A letra de Esperando Por Mim segue assim "Cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de afeição...".

Talvez a nossa geração não tenha sofrido o suficiente.
Talvez o problema seja outro: Talvez sintamos muita pena de nós mesmos.
Talvez...

O que sei é que gente que se concentra em escrever bem a própria história é que acaba escrevendo a história do mundo.

Se no fim das contas você ficou lendo e se perguntando qual era mesmo a primeira e maior frase de auto-ajuda de todos os tempos, bem... toma:

Você é insubistituível!

Mas, será mesmo que você está fazendo valer tudo isso?